Há menos de um ano atrás aventurei-me
na Ultra Maratona – Melides » Tróia, uma experiencia única, um desafio gigante
e uma prova duríssima que nos leva aos limites do corpo e da mente.
Depois desta experiência, sempre
pensei para mim:
- Este é o meu limite, este é o meu
tecto. Os 43 km na praia, ora com maré cheia, ora com maré vazia, ou as duas
coisas em simultâneo eram mais do que suficientes para me superar, ou, para eu
considerar que atingira os meus próprios limites.
E acreditei com uma fé inabalável
durante alguns meses, que esta prova seria suficiente para testar os meus
próprios limites.
Não sei ao certo quando começou. Mas,
a certa altura uma ideia apoderou-se de mim. Começou apenas como uma ideia, e
depois sente-se germinar dentro de nós, a ganhar asas, a tomar dimensão e a
crescer. Na minha Alma e no meu Corpo germinava mais um desafio, mais uma prova
de grande superação. Agora o sonho era um Ultra Trail!
É quando eu descubro o Ultra Trail da Serra de São Mamede. Mas o UTSM é uma prova de três dígitos! Isso, são 100 km, caramba!
Uma prova de 100 km é uma monstruosidade. Quanto mais, uma prova com 100 Km com
um desnível positivo com cerca de 3400 m, com partida e chegada a Portalegre
após passagem por Reguengo, Alegrete, alto de São Mamede, Apartadura, Porto da
Espada, Portagem, Marvão, Castelo de Vide, Carreiras e Cabeço do Mouro, em
semiautonomia e 24 h de tempo limite.
Pensei para mim:
- Isto não é prova para um simples
corredor de poletão. Isto é demais para as tuas capacidades José Diogo! Mas a
ideia transformou-se em vontade, em vontade de fazer um Ultra Trail. E essa
vontade era tão forte, que mesmo acordado, já sonhava subir e descer trilhos
por esses campos fora.
É um treino de 42km na Serra de São Mamede num ritmo calmo, mas que traduz com perfeição as dificuldades e perigos que um Ultra Trail acarreta. Terreno irregular, com muitas pedras soltas e de inclinação acentuada, tanto a subir como a descer. Passagem por ribeiros, vedações, muros de pedra, veredas, descidas técnicas, etc. Dá-me uma boa ideia daquilo que posso esperar na prova do dia 19 de Maio. Fiquei encantado com o espirito da alcateia do Atletismo Clube Portalegre, gente bem-disposta, simpática e cativante. Resumindo, boa gente.
De Portalegre trouxe comigo 2 lições:
- O Trail é fantástico, mas de uma enorme exigência e sacrifício.
- Os amigos estão e fazem-se onde quer que vá e seja eu próprio.
Ourique,
dia 19 Março:
Depois de alguns dias em processo de
reflexão, decido inscrever-me. Para surpresa de alguns, não é João Carlos?
Portalegre,
dia 29 de Abril:

Após convite do casal organizador
UTSM, segui viagem dia 28 para não fazer a viagem (250km de ida) de madrugada no
dia 29 e assim estar mais fresco para o treino na Serra de São Mamede. Fui
recebido em casa do João Carlos e da Maria Vitorina de braços abertos e como se
fosse da família. O meu obrigado aos dois. Ganhei amigos em Portalegre.
Faço o meu 2º treino de preparação na
Serra de São Mamede, e que sensação maravilhosa, foi “trepar” a enorme e
belíssima subida a Marvão pela poterna.
4
de Maio
Recebo um honroso e prestigiante
convite do mestre João Carlos Correia para representar o ACP, o qual
prontamente aceitei.
Agora
tenho uma responsabilidade a dobrar. Pois, tinha decidido fazer esta prova em
memória e em homenagem da grande mulher, da minha melhor amiga, – a minha Mãe,
que vi partir no dia 23 de Março.
Ourique,
dias 13 a 18 de Maio:
O nervoso miudinho aumenta, o nó no
estomago é agora maior. Revejo os planos para o dia 19 de Maio, vezes e vezes
sem conta. Os 100 Km parecem gigantescos e impossíveis de alcançar. Começo a
colocar em causa toda a preparação.
Portalegre,
dia 18 de Maio:
20h30
– Chegada a Portalegre.
Faço check-in na Mansão Alto Alentejo, bem localizada, confortável, um espaço
agradável.
21h15
– Jantar no
Restaurante “Leva-me contigo”, com a minha Filipa, o meu Pai e o amigo António
Marques. Será escusado dizer, que o meu jantar foi massa, ou melhor, dois
pratos de massa. O convívio no jantar serviu para me serenar, a “amena cavaqueira”
em que estivemos foi um bom prelúdio do que se iria passar no dia seguinte. O
vinho era uma boa “pomada”, um tinto da Herdade Porto da Bouga, Alegrete, que
recomendo vivamente.
23h00
– Recolhi ao quarto.
Infelizmente não consegui dormir, dei voltas e voltas na cama, mas o sono não
queria nada comigo, foi uma noite em branco.
Portalegre,
Estádio Eduardo Sousa Lima - Assentos, dia 19 de Maio
03h00
– Depois de um bom
duche, pequeno-almoço e de toda a logística (equipamento e alimentação) pronta
e preparada, chego ao estádio Eduardo Sousa Lima - Assentos.
03h30
– Câmara de chamada,
verificação do material obrigatório: Frontal acesso e com pilhas de reserva,
mochila/cinto que suporte no mínimo 1 litro de líquidos, 1000 calorias, cerca
de 4 barritas ou equivalente e apito.
Entre as 3h30 e às 04h00 – Várias
fotos de equipa, mais fotos e muitos nervos a mistura, ultimam-se os preparativos
para a grande Aventura UTSM.
4h00
– PARTIDA!!! Chovia
bem e a temperatura era óptima. Que
loucura, que emoção, que frenesim é ver e sentir 242 atletas, cada um com o seu
próprio objectivo, cada um com os seus próprios desejos e sonhos, de partida
para uma aventura de mais 100km.
Como o Paulo dizia:
-
Não é como começa, é como acaba que interessa.
PAC
1 Viveiro Florestal 10km
– A chuva continua, o andamento está vivo, talvez vivo demais. Mas por agora,
estamos bem. Dorsal rubricado e siga para Bingo. Pelo caminho junta-se ao grupo
Neville Suzman, um Australiano radicado em Portugal, e António Nunes do CRP
Ribafria.
E se a memória não me atraiçoa, antes
de chegar ao Alegrete, o João Paulo Albuquerque, mais um membro da alcateia,
reforça o grupo e a presença do ACP.
Tanto o Paulo Rodrigues como João
Paulo Albuquerque revelaram-se uns companheiros de viagem fantásticos, com
enorme espírito de camaradagem, generosidade e vitais para o sucesso desta
empresa.
Fazer 100km é uma tarefa enorme, agora
imaginem, se forem sozinhos!?

PAC
3 Antenas – 30km – Ao
aproximarmo-nos da subida às Antenas, vamo-nos apercebendo do que nos espera,
imaginem uma “parede” de terra e pedras soltas sem fim, com o relevo acidentado
e traiçoeiro como uma raposa. É com enorme dificuldade, mesmo a caminhar que se
faz este prémio de montanha, digno de qualquer prova, seja onde for. Mas, também
é aqui, que se separa o trigo do joio. E lá fui eu, e os meus companheiros,
metro a metro, passo a passo, uma conquista por cada metro, uma recompensa por
cada passo. Confesso que tive uma pequena (boa inveja) dos “titulares” dos
bastões de trail, naquela infernal subida. Só mais uma curiosidade, as mãos incharam-me, bem
como aos restantes. Isto deve-se ao facto de fazermos a subida a caminhar, e levarmos
as mãos numa posição baixa, limitando assim o fluxo sanguíneo.
No fim da subida às Antenas, a maior
recompensa: mais um festim para o estômago e para a alma. Comida, aplausos,
amigos, e a minha Filipa e o meu José a torcerem por mim. Abasteci de comida e
de carinho, e segui caminho com o Paulo e o João Paulo e os restantes.
Se a subida foi penosa, o “single
track” não lhe ficou atrás, uma descida técnica, muito acidentada, repleta de
surpresas.
PAC
4 Apartadura – 38 Km –
A boa disposição impera, o entusiasmo é a marca neste PAC 4. E embora
confiantes e animados, sabíamos que ainda faltava um longo caminho pela frente.
A paisagem é bela, e há que saber também desfrutar o passeio e o que nos
rodeia. Controlo e abastecimento e toca a mexer a pernas.
PAC
5 Porto da Espada – 48 Km – Mais
um posto de controlo e alimentação. Por motivos logísticos dos próprios, senti
aqui a falta do meu José, da minha Filipa e do amigo António que me vinham
acompanhar desde a partida, nem sei explicar o quão importante foi a presença
deles em cada PAC que passava com palavras de encorajamento que me enchiam de
força de novo. Era como alimento para mim, directo para o músculo da Alma.
Falando de alimento, por esta altura e de forma intervalada já teria ingerido
uns 3 géis para suplemento alimentar. Pois, um esforço destes não se quer só
com banana, marmelada e biscoitos.
Aproxima-se outro prémio de montanha
(Marvão), este talvez menos exigente, menos forte, mas as pernas já tem mais de
50km.
PAC
6 Marvão – 58 km –
Atrevo-me a dizer, que a “escalada” a Marvão foi difícil, terrível e penosa. O
caminho de pedra, a calçada íngreme e escorregadia partiu-me as pernas,
massacrou-me. Os mais de 50km nas pernas, já fazem a diferença. Depois da
calçada, seguimos por um curto caminho de terra, até encontramos uma espécie de
pequena vegetação baixa em redor do Castelo de Marvão e uma subida soberba, mas
de grande pendente e dificuldade, até entrarmos em Marvão pela poterna.
Devo confessar que Marvão é
simplesmente magnífico, e serviu de porta de entrada a um dos locais
emblemáticos do UTSM seja simplesmente espectacular.
O amigo Javier Garcia, um espanhol de Cáceres
que havia conhecido na segunda deslocação a Portalegre, apanhou-nos na subida
de Marvão, mesmo na entrada da poterna. E se a memória não me falha, será
sensivelmente por esta altura que se juntam ao grupo o Luís e o Inácio
Serrazina, ambos do CRP Ribafria e o Sérgio Jerónimo do Atlético Clube de São Mamede.
Chegamos a Marvão às 11h50. E eu
trazia o apetite de um “urso”, sabia que havia um prato quente e a possibilidade
de duche e mudança de roupa para quem o tivesse previamente requisitado. Mas eu
e os camaradas desta empresa, só pensávamos na sopa quente de legumes.
Confesso, que não me lembro de ter comido uma sopa tão boa, tão revigorante, energética
e espiritual como esta, repeti a dose e troquei para uns ténis mais macios,
pois os Salomon estavam a massacrar-me os metatarsos. Volto a abastecer de
alimento e sólido e liquido.
E num evento como este, um grande
momento é ver caras amigas e familiares a apoiar-nos, o UTSM permite muito
contacto com o público e é tão encorajador ouvir e sentir os nossos quando as
pernas começam a falhar.
Nota: noto pela primeira vez, um erro
na distância medida, o meu Garmin 305, regista um pouco mais de 60km em vez dos
58km anunciados.
PAC
7 – Carreiras – 67km –
A descida de Marvão é complicada, a força já não é a mesma. Mas a mudança de
ténis revela-se uma decisão acertada. Sinto-me mais fresco, mais leve e mais
aliviado das dores nos pés. Foi uma “etapa” relativamente simples sem nada de
relevante a registar. Nesta altura, disse para mim. Agora é até ao fim, nem que
acabe de gatinhas. Abastecimento em mais um PAC simpático e bem servido. Mais
um abraço aos meus, nesta altura, julgo que eles estariam mais cansados do que
eu.
PAC
8 – Castelo de Vide – 74km – Adorei
chegar a este PAC. Em primeiro lugar porque da Ermida, tem-se uma vista absolutamente
maravilhosa sobre Castelo de Vide, depois porque adoro “rapel”, mas acima de
tudo porque estava mais perto do meu objectivo, só já faltavam 26km. Mas nesta
altura, já o meu Garmin registava mais de 77km, onde supostamente deveriam ser
74km.
Já o disse e volto a dizer, gostei
particularmente do espirito do grupo ao qual pertencia, animado, motivado,
nobre, com um enorme espírito de camaradagem e generosidade que se tornaram sem
sobra de dúvidas vitais para o sucesso desta empresa. Sinto-me bastante honrado
por ter convivido com estas pessoas numa prova assim. Mais uma vez, destaco a importância
das minhas pessoas, sempre com a sua presença e mensagem de força.
PAC
9 – Convento da Provença – 88km – Foi
onde sofri mais para chegar, onde a “etapa” parecia interminável e esgotante. O
calor, a reserva de água esgotada, a distância abismal da dita “etapa”, e o
cansaço acumulado fizeram o resto. Com todas as dificuldades, não desistimos e
fizemos por tudo para chegar ao PAC 9, mais uma vez fomos um excelente exemplo
de luta, desafio e perseverança.
Chegados ao Convento da Provença, supostamente
aos 88km, mas os companheiros cujo relógio gps ainda tinha bateria falavam em cerca
de 92 km. O importante agora era abastecer, hidratar e preparar-nos para o
assalto-final. Senti-me derreado, e a palavra é mesmo essa. Estava exausto!
Mas, o objectivo e a meta ainda estão a
cerca de 12km. E foi para isso que eu cá vim, para chegar ao fim, para ser um Finisher!
Despeço-me pela última
vez dos meus e sigo caminho. Por esta altura, é difícil sentir alguma coisa, ou
melhor, dói tudo: pés, dedos dos pés, braços, pernas, mãos, ancas, costas,
ombros, etc. E já tudo fazia mal, ou eram as meias, ou era a mochila, ou a
camisola. Ou seja, à partir de uma certa altura tudo nos faz mal, tudo é um
peso imenso e faz diferença.
E lá fomos nós, a
procura do caminho para Portalegre, do caminho para a meta no
Estádio Eduardo Sousa
Lima. Penosamente, fomos alternando
entre uma corrida ligeira e uma caminhada nas subidas. Estes 12km pareciam não
ter fim, até que avistamos Portalegre. E aí, tudo se modificou, uma luvada de
ar fresco e de energia tomaram conta de mim.
E assim, cheguei à meta
no estádio Eduardo
Sousa Lima. Envolto em lágrimas, agarro-me aos meus e fico feliz por ter terminado,
e por ter homenageado a minha mãe. Mas suponho que nem esta prova é
suficientemente grande para espantar todos os meus fantasmas.
Obrigado ao meu pai, José Raul!
Obrigado a minha namorada, Filipa!
Obrigado ao Marcelo!
Obrigado ao António Marques!
Obrigado ao João Carlos e a Maria
Vitorina!
Obrigado ao Paulo Rodrigues e ao João
Paulo Albuquerque!
Obrigado a prima Inês, Filipa e
Afonso!
Obrigado a Ângela e ao Tiago!
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